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por Tatiana Paiva

16 de julho 2020

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Série “Humanitech” #2: Como as “death techs” estão transformando a nossa relação com a morte

Novas empresas levam inovação e transformação digital ao mercado funerário, facilitando processos burocráticos e propondo mudanças nos rituais de despedida

A morte inflama sentimentos complexos – dor, perda, tristeza, revolta. Envolve o medo e o misticismo, mas também a esperança, a fé e, por mais estranho que pareça, a felicidade. Desperta compreensão, amor e saudades. Das verdades humanas universais, a morte é a que mais nos testa. Ela pesa. E isso explica por que fui tomada pela dúvida ao receber a pauta desta matéria. Por onde começar? Como tratar de um assunto que pode ser delicado para tanta gente?

Involuntariamente, minha mente vasculhou os clichês sobre o tema, embora a percepção sobre o fim seja extremamente individual e variável, de acordo com épocas e culturas. Senti uma espécie de paralisia – mas se a morte é um processo natural da vida, falar sobre ela não deveria ser um tabu, certo? E para complicar ainda mais a minha situação… como falar sobre morte em meio a uma pandemia que, enquanto escrevo este texto, matou mais de 75 mil pessoas em quatro meses, só no Brasil?

A Covid-19 nos obrigou a fazer mudanças, até quando mais dói. Para evitar aglomerações, cerimônias religiosas, velórios e funerais ganharam transmissões ao vivo em tempos de isolamento social, na tentativa de preencher minimamente o vácuo da ausência, de abraços impossíveis e do luto solitário. Mas esse é só um exemplo de como a tecnologia e a transformação digital estão impactando a indústria da morte. E esse ciclo entrou em curso antes mesmo da pandemia.

Eternizando memórias

Na morte, a inovação pode incomodar, já que importuna práticas fortemente simbólicas e tradicionais na nossa cultura. Nessa linha, lápides com fotos e informações como datas de nascimento e falecimento das pessoas ali sepultadas podem estar com os dias contados. Tornar os túmulos verdadeiros memoriais é a proposta da QR Memories, criada pelo empresário Stephen Nimmo em 2012, no Reino Unido.

Enquanto passeava por um cemitério com seu enteado, Taylor, Stephen se deu conta do  quanto os memoriais eram pouco inspiradores e não contavam a história de quem partiu. Até então, ele trabalhava como diretor de funerais há 25 anos e também administrava o Serviço Funerário Chester Peace há 10 anos. Viu, então, uma oportunidade que se encaixava em seus negócios.

“No Reino Unido, os funerais permanecem bastante tradicionais, mas muitas famílias adotaram a ideia do QR code como uma forma de homenagear seu ente querido e mantê-lo sempre atual. Os funerais ainda seguem muito conservadores, ainda que isso esteja começando a mudar, mas a maneira como lembramos das pessoas após a morte é muito liberal”,  disse Stephen, em uma conversa que tivemos por e-mail.

E como a tecnologia da QR Memories funciona, você deve estar se perguntando? A explicação é bastante simples: uma placa de aço e um QR code cortado a laser, resistentes às condições climáticas, são colocados no túmulo. Com um smartphone ou tablet, a pessoa faz a leitura do código, que leva a uma página da internet com fotos, informações e até as músicas preferidas da pessoa homenageada.

Para Stephen, esse é um mercado em crescimento, mas que ainda esbarra em questões locais e culturais. Para que a sua tecnologia ganhasse escala e projeção, o empresário nomeou 40 a 50 agentes por todo o país, que tratam das vendas diretas. “As famílias ainda ficam inclinadas para o tradicional, mas as novas gerações abraçam cada vez mais a inovação, tenho certeza”, diz ele.

A hora e a vez das “death techs”?

Se, em um passado não tão distante, o mercado funerário era dominado por empresas pequenas e familiares, hoje essa realidade muda pouco a pouco. Estaria a ascensão das “techs”, as startups que estão levando tecnologia e inovação para diversos setores, abraçando, também, a indústria da morte? A realidade é: sim. As “death techs” chegaram.

De auxílio nas tarefas burocráticas que envolvem o falecimento a novas formas de eternizar memórias nos túmulos, essas novas empresas levam a transformação digital a um setor que não é para qualquer um – e ajudam a resolver problemas que ninguém tem estômago para cuidar. É o caso da francesa Simplifia, que fornece software para empresas funerárias e também presta serviços diretamente para familiares em luto, auxiliando em processos administrativos, como fechamento de contas bancárias e pagamento de boletos em aberto. A companhia tem parceria com mais de 700 empresas funerárias francesas.

Outra novata nesse ramo é a também francesa AdVitam, que não tem ponto físico. Ela ajuda famílias na organização de funerais e compra de itens, como caixões, por telefone ou e-mail. Desde seu lançamento, em 2016, a startup já organizou mais de 1.500 funerais.

A transformação do mercado funerário ganhou novos capítulos e possibilidades com os recursos digitais. No entanto, a inovação não é uma ideia totalmente nova nessa área. Isso porque a morte suscita uma outra discussão delicada e que também depende da tecnologia para encontrar soluções: a preocupação com o meio ambiente. Novos processos buscam substituir enterros e cremações, métodos considerados pouco ecológicos, já que contribuem para a emissão de gases tóxicos na atmosfera – seja pelo processo natural de decomposição dos corpos ou pelos combustíveis utilizados no ritual de cremação.

Pois se da natureza viemos, para a natureza devemos voltar – e sem prejudicá-la. Essa é a proposta da startup americana Recompose, que criou um sistema para acelerar a transformação de um corpo em um pequeno pedaço de solo, a partir do processo de compostagem. Ao fim do procedimento, que dura um mês, o material é devolvido à família para que os parentes possam plantar uma árvore, por exemplo. Graças a essa ideia, em 2018,  a Recompose levantou mais de US$ 7 milhões em investimentos.

Morte e vida: duas pontas do mesmo fio

Para muitas pessoas, a morte é um tabu. Para outras, lidar com ela é uma forma de levar a vida, fazer carreira e colocar projetos em prática.

Depois de 17 anos de trabalho em um grupo empresarial do cemitério da família, Gisela Adissi acumulou muita experiência no setor funerário. Quando deixou o negócio familiar, seguiu por outras três vertentes ligadas diretamente ao mercado da morte: além de se tornar presidente do Sincep (Sindicato dos Cemitérios e Crematórios Particulares do Brasil), ela criou a Flow Death Care, sua própria consultoria de inovação para o setor funerário, e também o projeto “Vamos falar sobre luto”, uma plataforma digital que serve como rede de apoio para aqueles que perderam seus entes queridos.

A pandemia mudou completamente a rotina de Gisela. Na Sincep, precisou orientar rapidamente todo o setor em relação aos novos protocolos de segurança contra o novo coronavírus, incluindo tempo de velório, equipamentos de proteção e novas regras para o setor privado. “Tudo é muito complexo. As pessoas estão sendo privadas de suas despedidas, seus familiares estão morrendo em hospitais, isolados. Seus rituais estão sendo cortados”.

Para Gisela, a morte é o tabu do mundo moderno, e é isso que torna ainda mais difícil esse momento. “Trabalhar com isso não nos imuniza. Para mim, o assunto não é mais um tabu, mas não sou imune ao que a morte impacta. As dores do luto são universais. Tirar a morte desse lugar em que é proibido falar sobre ela é incluí-la na vida, é entender que ela faz parte dos dois lados da mesma moeda”.

Ainda que em maior evidência nos últimos tempos, a tecnologia não é novidade no setor funerário, e também está provocando uma mudança de comportamento nos momentos de despedida. “O setor é tradicional, mas não arcaico. É um mercado que está aberto ao novo. Em relação à inovação, ainda não vi algo que possa ser considerado o “Uber” do funeral, nem mesmo a pandemia trouxe uma novidade altamente disruptiva.  Acredito que os memoriais que estão sendo feitos online vieram para ficar, mas não seremos um setor essencialmente virtual. Estamos vivendo um momento de oportunidade de criar novas narrativas e novos sentidos para o luto”.


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