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por Silvia Paladino

28 de maio 2020

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Em terra de lives, quem não tem disfarce é rei

Os formatos nunca foram os culpados pelo cansaço da audiência. Quer conhecer os verdadeiros condenados? Este artigo traz uma pista

Há coisas difíceis de se disfarçar. Uns não conseguem esconder o desconforto de ter a própria opinião questionada. Outros entregam o medo da exposição na respiração curta e aflita. Há quem não consiga exercitar nada mais do que pura educação quando não vai com a cara de alguém. Uns tentam engolir o jantar sofisticado, enfeitado de cogumelos pálidos e fibrosos. Muitos fingem estar presentes quando gostariam de estar em outro lugar. E ninguém consegue estar de frente com a pessoa desejada sem perder algum grau de maturidade – e é claro que todo o mundo percebe. Eu já estive em todas essas situações – você, provavelmente, também (com a exceção de que, talvez, você goste de cogumelos, o que eu lamento).

Não é por acaso que a gente se identifique com ao menos parte dessas experiências. Disfarçar não é uma habilidade humana natural, embora as convenções sociais, a insegurança, nossas manias e as condutas corporativas nos obriguem, eventualmente, a isso. Nossos gatilhos viscerais não nos deixam fingir sem deixar rastros de verdade. Assim, no teatro das nossas ações, as cenas revelam os erros de continuidade, a inconsistência dos personagens, a narrativa meramente técnica e a atuação de um diretor inocente, que tenta convencer a audiência de uma história na qual ele mesmo não acredita.

Esse choque de realidade é um dos motivos pelos quais o vídeo me fascina. Os apreciadores dos bons documentários – que, aliás, ganharam um maior (e merecido) espaço nas produções audiovisuais, recentemente – irão me entender: a arte de documentar a vida real em vídeo revela o que talvez nenhuma outra arte consiga: você pode inventar no texto, enganar na voz e, se quiser muito e treinar para isso, simular os gestos a favor dos seus interesses. Mas a face… ah, a face não mente, como diz a Claudia Cotes, fonoaudióloga que treina gente de diversos campos, como do jornalismo, para desconstruir vícios e mitos da fala em vídeo. E você se surpreenderia com a facilidade com que eles se manifestam.

Foi a Claudia, por sinal, que me colocou em uma via de desenvolvimento pessoal que eu desconhecia. Ela assistia à gravação de uma entrevista minha com um especialista de mercado quando lançou: “Por que você parece entediada?”. A crítica veio amaciada por um sorriso esperto, de quem diz: “vai, não mente pra mim”. A resposta era óbvia: porque eu estava entediada. Eu só não tinha consciência de que, na frente das câmeras, estava expondo o meu pior disfarce, vestindo uma máscara de vidro sobre uma expressão que eu sei bem como funciona – ela aparece diante de multidão, de música ruim ou, no alto da minha arrogância, de uma fonte que não tem nada de curioso ou autêntico a dizer. 

O vídeo, meu amor, não esconde nada. De rugas à preocupação predominante com a autoimagem. Do texto (mal) decorado à falta de envolvimento com o momento que está acontecendo ali, bem diante da audiência invisível. Dos quilos a mais à formalidade que não convence ninguém, seja na linguagem convencionalmente jornalística, na postura executiva, no rigor acadêmico ou na desenvoltura verbal sem conteúdo.

O mesmo vale para as transmissões ao vivo, claro. Nesses tempos tensos e imprevisíveis de pandemia, resta-nos uma certeza: a de que haverá live.

Algumas pessoas têm me perguntado: mas quem é que vai assistir a tanta live? É uma questão importante para se pensar, mas que não traz qualquer ineditismo para quem trabalha com o desafio de produzir conteúdo de impacto – seja qual for a plataforma. Os formatos nunca foram os verdadeiros culpados pelo cansaço da audiência, ou pelo aborrecimento dos leitores (mas quem vai consumir tanta matéria, tanto artigo, tanta vontade de se dizer o que pensa?). No banco dos condenados, descansa a falta de originalidade, de repertório, de preparo e de cuidado – no caso das transmissões ao vivo, com um agravante: a displicência com a estética. Já cansou de conhecer o teto da casa das pessoas e assistir a cabeças flutuantes, sem pescoço, falando com você? Eu te entendo. Mas esse é assunto para outro artigo.

Vídeo não esconde nada, lembra? Essa é a base sobre a qual a originalidade, o repertório, o preparo e o cuidado se desenvolvem. Descobrir que você não tem o que fingir – e nem precisa – diante das câmeras é libertador. Por que você não experimenta também e me conta?

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